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De cápsulas de café a lacres de latinha: designer transforma resíduos em joias sustentáveis

Quando se pensa em joalheria, a primeira imagem que costuma surgir é a de ouro, prata, pedras preciosas e outros materiais de alto valor. No ateliê da designer Mel Chung, porém, a matéria-prima pode estar em uma cápsula de café usada, em um lacre de latinha ou até mesmo em uma embalagem de Tetra Pak.

Sul-coreana nascida em Seul e naturalizada brasileira — chegou ao Brasil aos 9 anos —, Mel, hoje com 70, encontrou na combinação entre arte, design e sustentabilidade uma maneira própria de fazer joias. Desde 2008, ela transforma materiais descartados em peças autorais, utilizando técnicas tradicionais da ourivesaria.

O resultado são colares, brincos, pulseiras e anéis produzidos com lacres de latinhas de cerveja e refrigerante, cápsulas de café, retalhos de alumínio, fios metálicos e embalagens recicladas.

O trabalho deu origem à marca Ecoarte Mel Chung, certificada pela organização Ecolmeia. Ao longo de quase duas décadas, as criações da designer foram apresentadas em diferentes eventos no Brasil e no exterior. Entre eles estão uma exposição coletiva que passou por Finlândia, Suécia e Lituânia, em 2018; uma edição online da Brazil Jewelry Week, em 2020, durante a pandemia; e o Salão do Artesanato, realizado em São Paulo, em 2025.

Suas peças também aparecem no livro Joias do Brasil, de Eliane Soares, publicado em 2019, e em um catálogo da Central de Designers.

Da publicidade ao universo da arte

Antes de transformar resíduos em joias, Mel construiu uma trajetória profissional ligada à criação.

Formada em publicidade, trabalhou em agências como Darta e Lintas, na área criativa. Paralelamente, começou a pesquisar tendências de moda para butiques e marcas brasileiras — uma atividade que a levou a viajar para grandes centros internacionais.

“Naquela época, nos anos 1990, as tendências demoravam muito para chegar aqui, então eu tinha que viajar para ver o que estava acontecendo em Nova York, Londres e Paris”, conta. “Mas aí veio a globalização e acabou com a minha festa.”

A mudança tecnológica e a velocidade de circulação das tendências fizeram com que Mel buscasse novos caminhos. Ela passou a trabalhar com leilões de arte e, ao mesmo tempo, começou a se dedicar cada vez mais à produção artística, de maneira autodidata.

A preocupação com sustentabilidade também ganhou espaço em sua trajetória. Durante dois anos, Mel foi voluntária em uma comunidade do Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, onde ensinava crianças a reutilizar materiais.

Foi justamente da união entre arte e reciclagem que nasceu o caminho que a levaria à joalheria sustentável.

O encontro que mudou sua trajetória

O reconhecimento no mundo da joalheria começou a ganhar força em 2011, depois de um encontro casual.

Durante um evento social, o mestre joalheiro Salvador Francisco Neto ficou intrigado com o colar que Mel usava. A peça havia sido confeccionada por ela mesma, utilizando fios de arame.

“Ele ficou olhando fixamente para o meu colar, se aproximou e perguntou de quem era. Contei que tinha feito e ele disse que eu tinha potencial”, lembra.

Salvador, que morreu em 2023, era conhecido por experimentar diferentes materiais em suas criações, com destaque para o aço inoxidável e o titânio.

Na época, ele dava aulas na escola de joalheria ArteMetal, na Vila Madalena, em São Paulo. A convite do mestre, Mel passou a frequentar as aulas e mergulhou definitivamente no universo da ourivesaria.

“Foi ele quem me incentivou, me apresentou a outros joalheiros, me levou a eventos da área. Sou muito grata ao Salvador por tudo.”

O preconceito contra o material reciclado

A entrada no circuito da joalheria, entretanto, não foi simples. Mel conta que enfrentou resistência justamente por utilizar materiais que, naquele momento, eram associados ao descarte e não ao luxo.

“Sofri muito preconceito pelo fato de usar material reciclado. Naquela época, não se falava em sustentabilidade na área da moda, nem em mudanças climáticas. Tive que ser persistente para não desistir, porque realmente eu era meio desprezada”, afirma.

A mudança começou a acontecer em 2014, quando Mel foi selecionada para participar da Paraty Eco Fashion, evento dedicado à moda sustentável.

Em Paraty, suas peças puderam ser vistas tanto no showroom quanto nos desfiles da programação. Foi também durante o evento que a designer conheceu a curadora Luciana Morais.

Morando em Nova York, Luciana propôs levar algumas das criações de Mel para serem apresentadas nos Estados Unidos. As peças chegaram a outros espaços internacionais por meio de convites da Saphira & Ventura Gallery e da Brandslam.

“Depois disso, o pessoal começou a ver com outros olhos o meu trabalho”, conta.

Quando cápsulas de café viraram matéria-prima

A criatividade de Mel também foi alimentada por aquilo que amigos e clientes descartavam.

Como todos sabiam que ela trabalhava com materiais reciclados, começaram a guardar objetos que poderiam ser reaproveitados. Para a designer, praticamente qualquer material poderia se transformar em uma nova criação.

“Um amigo, por exemplo, me deu um rolo de fio de silicone que estava encostado, aí peguei e fiz um colar. O que caísse nas minhas mãos, eu tentava transformar.”

Antes de concentrar sua produção nas ecojoias, Mel também criou objetos de decoração. Uma luminária feita com fios de silicone, por exemplo, chegou a ser exposta no MuBE (Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia), em São Paulo, e, segundo ela, ganhou destaque na revista Claudia Decorações.

Mas foi a observação de um objeto cada vez mais presente no cotidiano que despertou sua atenção: as cápsulas de café.

Quando as máquinas de café expresso se popularizaram, Mel passou a notar que as cápsulas utilizadas eram descartadas após o consumo.

“Quando as cápsulas surgiram no mercado, eu estava participando de muitos eventos e em todos tinha uma máquina de café desse tipo, era um símbolo de status. Só que eu via que, após o consumo, aquele material ia parar no lixo comum.”

Embora as cápsulas possam ser recicladas, o processo depende de logística reversa e da participação do consumidor, que precisa devolver o material aos fabricantes. Na prática, muitas acabam sendo descartadas de maneira inadequada.

Mel enxergou ali uma oportunidade.

“Comecei a observar como as cores das cápsulas eram vibrantes e passei a abrir aquele invólucro, amassar, testar, errar… até descobrir um modo de usar.”

A partir daí, as cápsulas passaram a integrar diferentes coleções. Algumas peças são feitas inclusive com cápsulas de edições limitadas ou provenientes de outros países.

Na visão da designer, isso acrescenta um elemento de exclusividade às joias — quase como acontece com pedras raras na joalheria tradicional.

Do lacre da latinha ao design autoral

Os lacres de latinhas também ganharam nova função nas mãos de Mel. Em vez de serem descartados, eles são incorporados às peças e passam a fazer parte da estética do objeto.

A lógica é simples, mas exige experimentação: observar o material, entender suas possibilidades e encontrar uma maneira de transformá-lo.

Esse processo fez com que o que antes era visto como resíduo passasse a ser reconhecido como elemento de design.

Atrizes e personalidades entre as clientes

As ecojoias de Mel são comercializadas em feiras e eventos, cuja agenda costuma ser divulgada por ela nas redes sociais.

Em março deste ano, por exemplo, a designer participou de atividades no Sesc Santo Amaro e do Encontro Vegano JMA, evento relacionado à temática da sustentabilidade.

Nessas ocasiões, é possível encontrar peças mais acessíveis, com preços que variam aproximadamente entre R$ 40 e R$ 180.

Já no ateliê que mantém nos Jardins, em São Paulo, Mel desenvolve peças exclusivas e modelos personalizados. Nesses casos, o preço aumenta de acordo com a complexidade e o tempo de produção.

Entre suas clientes estão nomes conhecidos, como a atriz Cláudia Raia, que possui três colares da marca — entre eles um modelo de sete voltas produzido com cápsulas enroladas —, e Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que tem um colar feito com lacres.

O alcance das criações também ultrapassou as fronteiras brasileiras.

“Muitas das minhas joias acabam indo para fora. Recentemente, uma pessoa levou para a Alemanha dez peças para presentear”, conta.

As ecojoias da designer também são comercializadas em Dallas, nos Estados Unidos, em uma loja administrada por uma brasileira.

Uma nova fase, sem abandonar a sustentabilidade

Depois de quase duas décadas dedicadas à criação de ecojoias, Mel começa a pensar em uma nova etapa de sua vida profissional.

Aos 70 anos, ela diz que pretende diminuir o ritmo, mas não demonstra intenção de abandonar a criatividade — nem a defesa de uma moda mais consciente.

“Já trabalhei bastante, agora, estou em outra fase, querendo desacelerar”, afirma. “Mas, por enquanto, sigo criando peças novas e levantando a bandeira da conscientização e da sustentabilidade.”

Sua trajetória mostra que, na economia circular, o valor de um material não precisa estar relacionado ao seu preço de mercado. Uma cápsula de café, um fio de silicone ou um simples lacre de latinha podem ganhar uma segunda vida quando encontram alguém disposto a enxergar, além do descarte, uma possibilidade de criação.

*Com informações do Projeto Draft.

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Camila Bezerra

Jornalista especialista em contar histórias de superação. Feminista, sonha em criar um mundo mais igualitário e justo para as mulheres por meio da informação e do empoderamento econômico.

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