Uma necessidade percebida durante a amamentação acabou se transformando em um negócio milionário para duas irmãs americanas.
Em 2013, Jane Molina e Joy Williams, de St. Louis, no estado do Missouri, viviam uma fase intensa. Juntas, cuidavam de cinco filhos pequenos e administravam a tradicional empresa da família no setor de aquecimento e refrigeração.
Foi nesse período que Jane começou a imaginar um novo produto.
Enquanto amamentava o terceiro filho, percebeu que, em alguns momentos, o bebê não procurava o peito apenas para se alimentar, mas também para buscar conforto. Ela então começou a procurar uma chupeta que pudesse atender a essa necessidade e, ao mesmo tempo, proporcionar mais liberdade para a mãe.
O problema era que os produtos disponíveis no mercado tinham um formato muito diferente do tecido mamário. Jane queria criar uma chupeta ultramacia, de silicone, que reproduzisse melhor essa sensação e estimulasse uma pega mais ampla, em vez do movimento mais apertado dos modelos tradicionais.
A pergunta surgiu naturalmente: e se elas próprias criassem o produto?
Uma ideia que nasceu em meio às dificuldades
Jane compartilhou a ideia com a irmã, Joy, que tinha experiência em marketing e poderia contribuir para transformar o conceito em negócio.
No início, Joy não estava convencida de que aquele era o momento certo para começar uma nova empresa.
A família ainda enfrentava dificuldades financeiras na empresa de aquecimento e refrigeração, que havia sido afetada pelos efeitos da crise financeira de 2008. As contas eram difíceis de fechar.
“Basicamente, andávamos com buracos nos sapatos, comíamos sanduíches de mortadela e bebíamos Coca-Cola, pagávamos a folha de pagamento e, no fim da semana, tínhamos US$ 150 na conta bancária”, lembra Joy.
Mesmo assim, Jane acreditava que precisava transformar sua ideia em realidade.
Aos poucos, Joy também embarcou no projeto.
Assim nasceu a Ninni Co., nome escolhido em homenagem à avó das irmãs, que amamentou dez filhos e chamava o ato de amamentar de “ninni”.
O caminho entre a ideia e o lançamento, porém, seria longo.
Sete anos desenvolvendo o produto
Durante aproximadamente sete anos, as duas trabalharam na Ninni Co. paralelamente às demais atividades.
Para financiar o desenvolvimento do negócio, contaram com a ajuda da família, incluindo a mãe. Também utilizaram parte das próprias economias e recursos destinados à aposentadoria.
O primeiro protótipo custou menos de US$ 1 mil. As irmãs também contrataram um advogado para ajudá-las a proteger a invenção por meio de uma patente.
A estratégia era avançar aos poucos, sem comprometer completamente a estrutura financeira da família.
Mas, em 2019, Jane e Joy decidiram que era hora de apostar integralmente no novo empreendimento.
A venda da empresa da família
Para liberar recursos para a Ninni Co., as irmãs decidiram vender a empresa de aquecimento e refrigeração da família.
O negócio foi vendido por US$ 500 mil, pagos em três parcelas. Ao mesmo tempo, as empreendedoras ainda tinham uma dívida de US$ 120 mil com fornecedores.
Joy faz questão de lembrar que vender uma empresa para financiar outra não significou uma grande sobra de dinheiro.
“As pessoas ouvem ‘vocês venderam uma empresa e usaram aquele dinheiro’, mas não foi tudo glamour nem uma quantia exorbitante”, explica.
As irmãs também participaram de programas de incubação e empreendedorismo, como o BioSTL e o Square One, programa do Center for Emerging Technologies. Pelo programa Level Next, receberam ainda US$ 10 mil.
Os recursos foram utilizados para testar o protótipo com consumidores e encontrar um fabricante. A empresa escolhida ficava no norte do estado de Nova York e continua sendo responsável pela fabricação dos produtos até hoje.
Foi então que surgiu outro obstáculo: produzir o molde da chupeta custaria entre US$ 50 mil e US$ 75 mil.
Mais uma vez, as irmãs precisavam encontrar dinheiro para continuar.
Um café que mudou os rumos da empresa
A solução veio de um encontro inesperado.
Durante um evento de networking, Jane e Joy conheceram um homem que trabalhava no Carrollton Bank. Jane carregava consigo o protótipo da chupeta dentro de uma pequena caixa comprada em uma loja popular.
Durante um café, ela apresentou o produto ao potencial financiador.
A explicação despertou imediatamente o interesse dele: sua própria esposa estava amamentando naquele momento.
Ele entendeu a necessidade por trás da invenção e concordou em estruturar um empréstimo para as empreendedoras.
O projeto continuou avançando.
Antes do lançamento, as irmãs também receberam US$ 70 mil de investimento-anjo de dois homens mais velhos da igreja que frequentavam. Em troca, eles ficaram com 20% da empresa.
Para Jane, aquele investimento representava uma quantia enorme naquele momento.
“Foi uma grande parte da empresa que entregamos logo no início, mas, claro, nossa empresa estava avaliada em praticamente zero. Então, para onde Joy e eu estávamos naquele momento, US$ 70 mil poderiam muito bem ter sido US$ 250 mil”, conta.
O lançamento pela internet
Em março de 2021, as irmãs decidiram que não poderiam esperar mais para testar o produto no mercado.
A Ninni Co. foi lançada pela plataforma Shopify, com a chupeta sendo vendida por US$ 12,99.
Como ainda não tinham dinheiro para contratar um fotógrafo profissional, utilizaram imagens de banco e começaram a divulgar a marca pelas redes sociais.
No primeiro dia, venderam aproximadamente 100 chupetas, impulsionadas pelo apoio de familiares e amigos.
Depois, porém, as vendas caíram. Em alguns dias, chegaram a zero.
Durante cerca de seis meses, Jane e Joy cuidaram pessoalmente dos pedidos no porão da casa da mãe, com a ajuda dela.
Até que tudo mudou.
Um vídeo viral transforma o negócio
Em abril de 2021, um vídeo publicado nas redes sociais levou a Ninni Co. a um novo patamar.
Uma amiga de Joy, que também era influenciadora, utilizava o produto com o próprio filho e gostava da experiência. Ela decidiu publicar um vídeo no Instagram.
Joy repostou o conteúdo no TikTok.
As irmãs haviam ativado no celular as notificações da Shopify. Cada venda era acompanhada por um pequeno alerta sonoro.
Naquela noite, os “dings” não paravam.
Na manhã seguinte, elas perceberam que a Ninni Co. havia viralizado.
Havia, porém, um problema: as irmãs tinham apenas 35 chupetas em estoque, enquanto outras 250 estavam prontas na fábrica.
Joy rapidamente assumiu o papel de estrategista de marketing. Começou a divulgar nas redes sociais os próximos lançamentos, novas cores e datas de reposição.
A escassez acabou criando uma sensação de exclusividade em torno da marca — e a estratégia funcionou.
O faturamento dispara
O crescimento da Ninni Co. acelerou nos anos seguintes.
Em 2023, a empresa faturou cerca de US$ 2,2 milhões.
No ano seguinte, a receita chegou a US$ 2,9 milhões.
Em 2025, o faturamento saltou para US$ 5,3 milhões, um crescimento de aproximadamente 83% em relação ao ano anterior.
Para 2026, a empresa projeta alcançar US$ 6,5 milhões em receita.
Atualmente, a Ninni Co. vende mais de mil chupetas por dia.
Em apenas quatro anos, Jane e Joy também conseguiram recomprar 95% da empresa dos investidores-anjo.
Hoje, a companhia conta com oito funcionários, mas as próprias fundadoras continuam envolvidas diretamente na operação e no atendimento dos pedidos.
Nem todo canal de venda serve para todo negócio
Apesar do crescimento, as irmãs aprenderam que expandir não significa necessariamente estar presente em todas as plataformas.
A Ninni Co. é fabricada nos Estados Unidos e utiliza fornecedores principalmente americanos e suecos. Essa escolha resulta em margens de lucro menores do que as de produtos fabricados em alguns mercados internacionais.
Por isso, as empreendedoras passaram a ser mais seletivas na escolha dos canais de distribuição.
Um exemplo foi a decisão de deixar a Amazon depois de apenas quatro meses.
Segundo Jane, o período foi um dos mais estressantes e difíceis da história da empresa.
A plataforma passou a direcionar uma parcela significativa do tráfego que antes chegava ao site próprio da Ninni Co. Além disso, os pagamentos das vendas ficavam retidos por duas a três semanas e, no fim do processo, a empresa podia perder até 50% da receita para a operação.
As irmãs também haviam contratado uma equipe especificamente para administrar o canal.
A conclusão foi clara: a Amazon não fazia sentido para o modelo de negócio da Ninni Co.
“Não era adequada para o nosso modelo de negócio. Nem toda plataforma foi feita para toda empresa ou produto. Cada negócio é único, e você precisa respeitar isso”, afirma Joy.
Construindo uma comunidade em torno da marca
A escolha de manter o relacionamento direto com os consumidores também trouxe vantagens.
Ao atenderem os próprios clientes, Jane e Joy conseguem receber diretamente opiniões, críticas e sugestões sobre os produtos.
Ao longo dos anos, elas também construíram comunidades fortes no Instagram e no Facebook.
Esse relacionamento próximo ajudou a fortalecer a marca e também explica por que as irmãs recusaram diversas propostas para vender a empresa.
Para elas, a Ninni Co. não representa apenas um negócio.
“Queríamos construir essa empresa como as duas mães por trás de um sonho. Realmente sentimos que estamos vivendo o sonho americano e amamos o que fazemos todos os dias”, afirma Joy.
A trajetória das irmãs mostra que uma empresa pode nascer de uma necessidade aparentemente simples do cotidiano. Foram necessários anos de desenvolvimento, dificuldades financeiras, empréstimos, investimentos e muita persistência até o produto chegar ao mercado.
Mas também foi preciso saber reconhecer uma oportunidade quando ela apareceu — e, quando o negócio viralizou, estar preparada para transformar a atenção das redes sociais em crescimento real.
*Com informações do The Entrepreneur.
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