Por Cibele Maciel, da Agência Sebrae
Mais do que uma fonte de renda, o empreendedorismo tem se tornado aliado da população LGBTQIA+ – que inclui lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexo, assexuais e outras identidades de gênero – na superação de obstáculos sociais e preconceito no mercado de trabalho. Com foco em diversidade e inclusão, o Sebrae tem desenvolvido ações para apoiar e fortalecer os negócios liderados por pessoas LGBTQIA+, ampliando oportunidades e estimulando a representatividade desses empreendedores.
No Rio de Janeiro, a travesti Andrea Brazil é reconhecida pelo seu trabalho como empreendedora social no comando da Capacitrans, organização da sociedade civil (OSC) que funciona com uma rede de profissionalização e empreendedorismo para pessoas LGBTQIA+. Ela também é dona da marca Andrea Brazil – Moda Além de Gêneros, criada para corpos diversos.
O trabalho nasceu depois que ela se tornou dona do próprio salão de beleza para fugir da discriminação e preconceito que sofreu em ambiente formal de trabalho. Em uma quitinete, Andrea começou a oferecer cursos para pessoas trans na área de moda e imagem, como também de empreendedorismo diverso, ajudando quem participava a entender sua vocação no mundo dos negócios.
“Eu não queria que outras pessoas LGBTQIA+ sofressem todos os preconceitos que eu sofri. Com o tempo, percebi que o projeto não era só ensinar a minha equipe. Era ensinar pessoas a não serem reféns nem das ruas e esquinas, nem do mercado de trabalho que não contempla nossa população”, ressalta.
Virada de chave
Com apoio do Sebrae, ela participou gratuitamente do Empretec, principal programa de formação de empreendedores do mundo, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizado no Brasil exclusivamente pela instituição. A experiência foi fundamental para Andrea reconhecer suas habilidades empreendedoras, como liderança e visão de futuro, mas também foi o momento no qual ela começou a entender a importância de ocupar espaços como pessoa LGBTQAI+.
“O certificado do Empretec do Sebrae é o primeiro documento que eu tenho com meu nome social. Isso é muito significativo para uma pessoa trans. Ter o nome social em um documento abate 50% do preconceito em uma contratação, em um atendimento no hospital, entre outras situações”, explica.
Na época, Andrea começava a dar os primeiros passos no empreendedorismo social e a captar recursos por meio de editais de fomento.
No segundo ano da Capacitrans, ganhei três editais seguidos. Os investimentos eram maiores e eu precisaria montar uma equipe para trabalhar comigo. A ficha caiu: eu virei empreendedora.
Mais de 500 pessoas LGBTQIA+ já fizeram cursos profissionalizantes na Capacitrans em áreas como moda, gastronomia, audiovisual e maquiagem. “Desse total, mais de 20% das pessoas conseguiram mudar de realidade de vida. Mais do que oferecer cursos, viramos uma família que só cresce”, orgulha-se.
Andrea conta que a meta é ver o trabalho da Capacitrans acontecer em outros estados do país, enquanto finaliza seu curso de Direito. A expansão já está em negociação em parceria com a Coalizão Mais Brasil. “Nunca pensei que aos 50+ eu fosse fazer uma faculdade. Ganhei uma bolsa de estudos e percebi que virei inspiração para outras pessoas da comunidade”, reflete.

