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Resiliência em pessoa: como Daiane Amaral superou crises para empreender

Empreender, por si só, já é uma escolha que apresenta diversos desafios. Mas quando perguntei à Daiane do Amaral Costa quais foram seus grandes desafios, a jornalista de 30 anos não titubeia: ser mulher é ser mulher e negra em um país machista onde o racismo é velado.

Por conta do preconceito ainda tão presente na sociedade, ela sente que tem se provar todos os dias a excelência do seu trabalho, pois constantemente enfrenta questionamentos sobre como ela conseguiu gerar vendas milionárias para seus clientes de assessoria de imprensa. Pior: ela sente que tais questionamentos partem, geralmente, de pessoas próximas. “Há muitos olhares de admiração também, não posso negar. Mas quando eu vejo algum olhar negativo, como eu disse sou movida a desafios, eu transformo isso em escada para eu ir cada vez mais longe”, conta a paulistana.

A trajetória de Daiane não se resume, no entanto, ao racismo. Ela teve de se reinventar algumas vezes e superar uma das mais difíceis dores que um ser humano pode enfrentar: a perda de uma filha.

Mesmo depois de altos e baixos, a empreendedora conseguiu investir no sonho de ser dona do próprio negócio e hoje está à frente da DAC Comunicação, empresa de assessoria de imprensa e conteúdo que abriu em novembro de 2017, depois de romper uma sociedade. Confira a íntegra da trajetória inspiradora desta empreendedora que trabalha duro para voar cada vez mais alto.

Voa, Maria: Onde nasceu e um pouco da sua trajetória profissional antes da DAC.

Daiane Costa: Meu primeiro emprego foi aos 18 anos como orientadora profissional, vendia cursos profissionalizantes de uma rede de franquias de cursos muito famosa na época. Depois trabalhei em call center, como telemarketing. Entre 2006 a 2008, trabalhei no telemarketing em setores como: retenção, SAC, cobrança e vendas. Meu primeiro estágio foi em assessoria de imprensa. Trabalhei na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU) do segundo semestre de 2008 a 2010. Depois trabalhei como assessora de imprensa, freelancer, para a Feira Internacional de Panificação (Fipan). Era um trabalho de 10 dias. Depois fui trabalhar como redatora no jornal Jabaquara em Notícias. Fiquei lá três meses até conseguir o primeiro emprego como assessora de imprensa em uma pequena agência especializada em decoração, moda e beleza.

Voa, Maria: Por que optou pelo empreendedorismo?

Daiane Costa: A vontade de empreender veio em meados de 2014, quando estava no auge da minha carreira. Após ter trabalhado em agências de assessoria de imprensa nas áreas de moda, decoração e beleza, comecei a trabalhar em uma agência de RP de médio porte focada em franquias, educação, tecnologia e empreendedorismo. Aprendi muito. Lá comecei a ter contato com histórias de empreendedores, aprendi, por meio de matérias, conversas com empresários e jornalistas, o caminho das pedras para empreender. Comecei a ter contato com histórias incríveis de pessoas que largaram a carreira para empreender. Eram histórias de sucessos, mas também muitas de fracassos. Pessoas mais felizes por terem tomado essa decisão. Estava em um momento diferente da minha vida. Tinha acabado de me casar (hoje sou divorciada), mas queria me dedicar às tarefas de casa, mais trabalho voluntário que fazia na igreja, mas também queria ter uma renda. Pensei em mudar de área, em trabalhar com moda, montar um e-commerce de roupas femininas, pensei em montar uma hamburgueria e até vender cachorro quente. Queria algo novo, diferente, até cogitei a possibilidade de virar taxista, Uber não era tão falado no Brasil, na época (rs). Conversei com algumas pessoas importantes para a minha tomada de decisão e comuniquei meus chefes que iria sair. Contratei uma pessoa para ficar em meu lugar, treinei e antes de terminar o aviso prévio, a minha coordenadora na época me fez uma proposta. Ela avisou que a empresa estava passando por uma reestruturação e que ela havia recebido uma promoção, iria trabalhar na área comercial e precisava de alguém para assumir a coordenação da equipe e que só confiava em mim para assumir o cargo dela. Foi uma proposta tentadora, salário maior e um grande desafio pela frente. Sou movida por desafios. Por muito tempo fui insegura e não me achava capaz, mas quando surgia alguma oportunidade, não baixava a cabeça, pois queria testar a minha capacidade. Antes de continuar a história como coordenadora, gostaria de acrescentar uma passagem muito importante para mim, que explica o meu gostar de superar desafios… Ainda nessa agência, há 1 mês de trabalho como assessora de imprensa, ouvi de um cliente que após a minha entrada, o rendimento havia caído, que os resultados estavam fracos. Fiquei triste, conversei com um colega de equipe e ele falou para eu não me abater, pois eu era melhor que isso e que poderia mostrar que poderia sim fazer um bom trabalho. Vale ressaltar que este cliente era uma startup e que começou as suas atividades já se utilizando dos serviços de assessoria de imprensa, muitos profissionais da área vão concordar comigo que, quando se trata de uma novidade, e o produto é bom, a empresa se vende sozinha. E os veículos estão em busca de boas histórias e este cliente tinha uma excelente história, quando ele surgiu, a assessora que estava antes de mim, fez um excelente trabalho e colocou ele nos principais veículos. Quando entrei, precisei superar aqueles resultados, mas tinha pouco tempo de trabalho, mais ou menos 1 mês, estava dando continuidade em algumas entrevistas que estavam pendentes e cavando novas oportunidades, o cliente estava há 3 meses na agência. Quando recebi este feedback, confesso que me entristeci, mas recebi as palavras do meu colega e fui enfrentar esse gigante. O resultado disso, este cliente é meu principal case de sucesso, onde eu vou e quando eu falo que fiz assessoria de imprensa para essa marca, sou muito elogiada pelo bom trabalho. Fomos capa dos principais veículos de comunicação do País, como Veja, O Estado de SP, Folha e etc. Saíamos em grandes veículos em uma mesma semana. Passei de alguém com rendimento fraco à menina superpoderosa, era assim que ele me apresentava aos parceiros. Fui responsável por grandes parcerias que essa marca firmou. As ferramentas que usava era o marketing de relacionamento e a cara de pau mesmo de saber que o não eu já tinha, mas iria atrás do sim e a Fé em Deus, algo que levo sempre comigo. Sempre fazia as minhas orações entregando meu dia e minhas tarefas nas mãos de Deus. Uma vez enviei um e-mail despretensioso para uma pessoa pública, não acreditando que teria uma resposta positiva ou que no máximo uma assessora de imprensa iria responder, mas para minha surpresa, essa pessoa respondeu dizendo que acompanhava todas as matérias que saiam na mídia sobre o meu cliente e que amava o trabalho e que aceitava sim um encontro com ele. Tenho esse e-mail até hoje. Quando comecei a atendê-los foi em 2012, quando decidi empreender, após ter comunicado meus superiores lá em 2014, como mencionei acima, fui avisar meus clientes, este, que no começo falou do rendimento, encheu os olhos de lágrimas e me desejou muito sucesso, agradecendo por tudo que eu havia feito. Outro cliente me falou que se não desse certo o empreendedorismo que era para eu ir trabalhar com ele, pois conhecia poucas pessoas com garra, força de vontade e capacidade como a minha. Este era um cliente alemão, que morava no Brasil desde os cinco anos de idade e que falava muito para mim sobre as diferenças de cultura e como ele sentia dificuldade de encontrar alguns perfis profissionais. Nessa hora, o dono da empresa de RP na qual eu trabalhava, uma pessoa no qual tenho um imenso carinho, comprou a briga dizendo que se não desse certo, eu  iria voltar a trabalhar com ele. Essas passagens foram marcantes para mim, pois me deram forças para continuar e para eu acreditar mais em mim. Bom…voltando a proposta que a coordenadora me fez, aceitei. Aprendi a gerir pessoas, a administrar e, de cinco clientes que eu tinha, passei a ter 25 a 30, pois coordenava 6 pessoas e cada uma delas tinha de 5 a 6 clientes. Eu tinha que estar atento a tudo, participar de todas reuniões, pensar e criar estratégias para todos os clientes, acompanhar a evolução de todos e estar atenta as questões administrativas e financeiras da empresa. Não foi fácil. Tive problemas com a minha primeira equipe. Enquanto estava do lado como assessora era uma coisa, mas após ter assumido o cargo de gerência, as coisas mudaram. Lembro de chegar para trabalhar e não ter ninguém da minha equipe em seus lugares. Iniciávamos às 9h, era quase 10h e não tinha ninguém. Fui a uma padaria ao lado da empresa e estavam todos lá. Foram tempos difíceis, foi a minha primeira experiência como coordenadora, estava no começo, também tive as minhas falhas, mas aprendi muito. Até que formei uma equipe sensacional, pessoas nas quais tenho amizade, carinho e admiração e que torço muito por elas até hoje.

De coordenadora, passei a diretora e sócia dessa empresa e saí de lá devido um período muito conturbado da minha vida pessoal. Um dos meus sonhos é ser mãe e em 2015 engravidei, mas não pude viver este sonho, pois após 6 meses de gestação, descobri que o coração da minha filha havia parado de bater. Fui induzida a um parto normal, fiquei uma semana internada, registrei a filha morta e a enterrei. Se aquele momento de aprender a gerir pessoas foi difícil, gerir este sentimento dentro de mim foi pior ainda. Fiquei depressiva, não queria sair de casa, fiquei quatro meses de licença maternidade, vivendo o luto. No mês que estava acabando a licença maternidade e que estava decidindo o que faria da minha vida profissional, veio outra situação, me divorciei. Essa situação mais a morte da minha filha foram cruciais para a minha decisão. Percebi que a vida era curta demais para deixar nossos sonhos de lado. Vi que não são as pessoas que barram os nossos sonhos (há exceções), mas nós mesmos. Vi que não podia esperar mais e aquele sonho de 2014bvoltou muito forte. Nesse momento, uma pessoa querida, na qual também tenho carinho e torço pelo sucesso, me convidou para entrar em uma sociedade. Era uma agência de Comunicação, que existia há algum tempo. Ela tinha vontade de crescer e viu que se associar alguém poderia fazer com que o seu objetivo fosse alcançado. Fiquei um ano e meio, nos primeiros meses abri mão de receber um salário para ajudá-la, consegui levar alguns clientes para empresa e fechar algumas parcerias. Conquistei matérias bacanas para alguns clientes, tentei implementar alguns processos, alguns foram aceitos outros não. Mesmo estando feliz, no fundo não sentia que era algo meu, principalmente pelo fato de não conseguir implementar algumas coisas que acreditava. A empresa estava estruturada e seguia as características da dona. Percebi que não era ainda o que eu buscava, pois estava me limitando, como falei lá em cima, não são as pessoas que nos impede de realizar sonhos, somos nós mesmos, com nossos medos, nossas inseguranças e achar que não somos capazes. Então, olhando por tudo que passei, todos os desafios que enfrentei, vi que era o momento de encarar e ir atrás daquele sonho lá de 2014 (rs). Conversei com essa pessoa, avisei a minha saída. Foi difícil para nós duas, mas vimos que seria bem melhor. Dividimos os clientes e em novembro de 2017, nascia a DAC Comunicação.

Voa, Maria: Quais são os serviços que você oferece?

Daiane Costa: Assessoria de imprensa, marketing de relacionamento, relações públicas, ativação com influenciadores digitais, organização de eventos, relacionamento com formadores de opinião, marketing de conteúdo, entre outros.

Voa, Maria: Quais são os diferenciais dos seus serviços? E a importância da assessoria de imprensa?

Daiane Costa: O nosso diferencial é que atuamos na comunicação 360. Desenvolvemos um planejamento estratégico para os nossos clientes envolvendo todas as áreas de comunicação, como Relações Públicas, Relacionamento com a imprensa, Relacionamento B2B, relacionamento com formadores de opinião, marketing digital, marketing de conteúdo, ativação com influenciadores digitais, gerenciamento de mídia e etc. O trabalho da assessoria de imprensa é fundamental para grandes, média e pequenas empresas, sejam elas dos setores públicos ou privados, de modo geral, são a assessoria quem irá intermediar a relação entre a organização, na qual presta serviço, e veículos de comunicação. É comum nos depararmos com notícias veiculadas na mídia de empresas que precisam esclarecer alguma situação que envolva sua marca. Esses esclarecimentos normalmente vêm acompanhados de uma nota da assessoria de imprensa. Porém, muito além de gerenciar crises, o assessor tem como função criar um vínculo com os jornalistas apresentando o cliente como uma excelente fonte às matérias que este profissional irá fazer, seja para televisão, rádios, jornais e sites. Para as empresas, a assessoria auxilia no fortalecimento da imagem da companhia, além de gerar visibilidade ao seu público-alvo. Uma das vantagens é que o assessor trabalha com mídia espontânea, ou seja, consegue emplacar matérias gratuitas nos veículos de comunicação, gerando maior destaque às empresas em comparação ao anúncio publicitário. A matéria de um jornalista gera credibilidade oferecendo ao produto, marca ou empresa uma maior visibilidade. Além de funcionar como suporte para o marketing da companhia.

Voa, Maria: Como analisa o mercado para a atuação de assessora de imprensa? Tem bastante concorrência?

Daiane Costa: A tecnologia trouxe muitas mudanças para as assessorias de imprensa atualmente. Hoje requer do profissional um trabalho mais amplo, não só a transmissão de releases . As assessorias precisam seguir as novas tendências e oferecer serviços que geram negócios para os clientes. Os formadores de opinião da atualidade não são só os nossos colegas jornalistas de redação, mas agora blogueiros, youtubers, os chamados influencers digitais. Existem empresas que contratam os serviços de assessoria apenas para fazer o relacionamento com os influencers digitais. As agências precisam ficar atentas a isso e abrir o leque de serviços para seus clientes. Sim, há concorrência, mas só se destaca no mercado atualmente aquele que entendeu as necessidades do mundo atual e está oferecendo serviços que acompanham essa nova realidade.

Voa, Maria: Quais são as vantagens de empreender?

Daiane Costa: Trabalhar com o que mais ama, formatar uma empresa com princípios e valores nos quais você acredita. Errar e aprender com o erro. Acordar cada dia feliz sabendo que existe um longo caminho pela frente e que você é o protagonista. Ter a convicção que dará certo.

Voa, Maria: E os desafio que encontrou para consolidar o próprio negócio?

Daiane Costa: Encontrar mão de obra qualificada e colaboradores que sejam parceiros de fatos, não apenas funcionários, mas que vistam a camisa e tenham vontade de crescer.

Voa, Maria: Como superou estes desafios?

Daiane Costa: Ainda estou caminhando (rs). Mas acho que estou no caminho certo. Encontrei dois jovens, com perfis bastante distintos, mas com os mesmos objetivos: crescer. Ambos entendem a realidade da empresa, vestem a camisa e estão compartilhando deste sonho comigo.

Voa, Maria: Quais são suas estratégias de divulgação e captação de clientes?

Daiane Costa: A maioria dos nossos clientes vieram por indicação, mas procuro ir a eventos para fazer networking.

Voa, Maria: Quais dicas você daria para as mulheres que, como você, sonham em ter o próprio negócio?

Daiane Costa: Dê o primeiro passo. Como disse lá em cima, quem nos impede de realizar nossos sonhos somos nós mesmos. Enfrenta este gigante que está dentro de você (medo, insegurança e incredulidade). Para saber se vai dar certo, você precisa tentar. E se não der, reinvente, teste outros modelos, não é atoa que esta vontade nasceu em você. Mesmo que não tenha apoio, os melhores conselhos estão dentro de você.

Voa, Maria: Qual é o seu sonho em relação à sua empresa?

Daiane Costa: A DAC está dando seus primeiros passos, meu sonho é estabilizar a empresa no mercado e ser conhecida como uma agência parceira de seus clientes, responsável por gerar negócios.

Voa, Maria: Para você, empreender é…

Daiane Costa: Arte é saber superar desafios e nunca se deixar abater. É ter o mundo contra você e você seguir enfrentando todos os obstáculos.

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Jornalista especialista em contar histórias de superação. Feminista, sonha em criar um mundo mais igualitário e justo para as mulheres por meio da informação e do empoderamento econômico.