Beleza Entrevistas

Élida Aquino, da Afrôbox: “Quero ser uma marca relevante o bastante para transformar o mundo”

Depois de anos de chapinha e alisamento, a ditadura do cabelo liso finalmente acabou. Vivemos uma era em que o natural é cada dia mais valorizado, assim como o poder de escolha de usar os fios da forma que quisermos. E todo este movimento de empoderamento e também questionamento dos padrões de beleza resultou em novas demandas e oportunidades. Foi a partir desta análise que nasceu  Afrôbox, clube de assinaturas de cosméticos voltados para mulheres negras.

Estudante de Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Élida Aquino, de 25 anos, conta que está sempre preocupada em se envolver em projetos que possam potencializar principalmente mulheres, a fim de contribuir com o desenvolvimento de pessoas. Foi este sentimento que a levou a trancar a faculdade e investir em cursos e iniciativas que promovem o empreendedorismo, como a Iniciativa Jovem, da Shell, e Universidade da Correria. “Já tinha interesse em abrir meu próprio negócio e, por isso, comecei a prestar atenção nas oportunidades, principalmente na convivência com mulheres de militância negra”, acrescenta.

A empreendedora carioca de Anchieta, bairro do subúrbio do Rio, então teve a ideia de aproveitar a moda de clube de assinaturas, personalizando-o para a promoção da beleza afrodescendente. “A Afrôbox surgiu da vontade de falar do mercado da beleza para mulheres negras, que ainda são muito esquecidas pelas grandes marcas e falta diálogo direto entre marca e cliente final. Quis criar algo inovador. Trocava ideia com amigas do exterior sobre como seria bacana e confortável receber produtos em caixas e elas me inspiraram a fazer o mesmo aqui”, lembra.

Lacunas

Mas como tirar uma ideia do papel sem capital para investimento? Élida se cercou de sócios de diferentes habilidades. Ao lado de Bárbara Vieira e Graucianna Santos e Saulo Batista, ela criou um sistema de recomendação para o site, que funciona de forma semelhante ao Netflix. “Também criamos a plataforma em que o site opera e agora estamos estruturando o aplicativo”, comemora.

Depois de formar o capital humano da empresa, o desafio agora era buscar investimento, outro ponto bastante complicado na trajetória da empresa, de acordo com a empreendedora. “Somos um negócio de mulheres negras para mulheres negras, apesar de não ser um projeto exclusivista ou segregacionista. Mas a relação com investidores era sempre complicada, porque questões sociais e raciais incomodam. Tivemos de buscar alternativas, como o financiamento coletivo em canais de mulheres de impacto. Conquistamos a chancela da ONU [Organização das Nações Unidas] e Think Olga, mas ainda assim foi um desafio que conseguimos contornar.”

Uma vez estruturadas, a equipe da Afrôbox agora tinha de facilitar a comunicação entre marcas e consumidoras. “Sabemos que o interesse das marcas no público negro é oportunista e que elas estão colocando mais produtos nas prateleiras graças à pressão dos movimentos negros. É uma questão de mudança de posicionamento resultante do empoderamento de estético. Mas ainda não é nem perto do que deve ser, considerando que a população negra representa 53% da população e que ainda continua numa cota. A nossa tarefa é facilitar a comunicação para aproximar assinantes destas marcas, não só para consumir, mas para promover experiências”, analisa.

Desafios

Desde o lançamento, em dezembro de 2016, a Afrôbox já entregou 200 caixas, marca que para Élida é surpreendente, visto que “muitas pessoas tinham preconceito em comprar pela internet”. Porém, o clube de assinaturas ainda tem uma série de desafios. O primeiro delas é transformar leads em assinaturas. “Muita gente compra só para experimentar, mas temos de fazer com que esta cliente se transforme em assinante semestral ou anual”, aponta.

Outro desafio é trazer pequenos produtores para o negócio, a fim de criar oportunidades para desenvolvê-los. “São marcas veganas orgânicas, por exemplo, que não estão na mesma escala de grandes produtores e não têm poder econômico para escalar. Oferecemos uma boa oportunidade deles se venderem.”

Diferenciais

Mas nem tudo é desafio. Uma das vantagens apontadas por Élida é que a Afrôbox proporciona a entrega de produtos em lugares isolados, como Roraima, em que não há a distribuição de determinados produtos para mulheres negras.

“E a curadoria é a parte mais bacana do nosso processo, pois temos a missão de levar produtos realmente relevantes em caixas diferenciadas. Não entregamos caixas generalistas, mas sim produtos que realmente sirvam para as assinantes e que justifique o investimento na assinatura”, conta Élida. Neste processo, a Afrôbox conta com especialista em pele e cabelo afro, além de contar com 15 modelos no site, para que a assinante indique qual é o tom mais próximo da pele dela.  Vale ressaltar ainda que, caso a cliente não goste do produto, a equipe troca.

Mais que promover a beleza e desafiar padrões, Élida sonha em transformar o espaço em que ela vive. “Queremos gerar emprego e transformação social, absorvendo mulheres que o mercado de trabalho tradicional não absorveria. Também quero que os colaboradores trabalhem felizes em nosso ecossistema e tenham remuneração justa, com maior qualidade de vida e descobertas. Quero ser uma marca relevante o bastante para transformar o mundo perto de mim e criar uma rede de irmandade, cooperação, de cuidado umas das outras”, conclui.

Camila Bez

Jornalista especialista em contar histórias de superação. Feminista, sonha em criar um mundo mais igualitário e justo para as mulheres por meio da informação e do empoderamento econômico.

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